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17/05/2018 - Entenda os riscos e as oportunidades que o fenômeno do Open Banking abre para clientes e correntistas

Bancos de varejo em todo o mundo iniciam abertura de suas plataformas para
que terceiros acesses os dados seus correntistas e lhes ofereçam serviços.

 

Chegamos ao supermercado bancário. Ao entrar na conta corrente, pelo acesso eletrônico, você pode checar gráficos que agrupam seus gastos em restaurantes, postos de gasolina ou lojas de roupas e, quem sabe, receber avisos pelo mensageiro do Facebook como: “ei, cara, este mês, você gastou demais em bares e festas aos sábados”. Outro aplicativo prevê seu saldo futuro, simulando o salário que cairá na conta daqui a dez dias e já debitando o condomínio e a transferência mensal para a babá. Avisa o app: se nada acontecer de diferente, você vai chegar ao dia 30 com o saldo negativo. Seria bom resgatar uns R$ 1.000 de sua aplicação para evitar pagar juros.

Exemplos, como esses, acima, já são possíveis no mundo real, e as aplicações descritas não foram desenvolvidas por bancos de varejo, mas por empresas terceiras que “plugam” suas soluções nas plataformas digitais dos bancos tradicionais. O primeiro exemplo, de controle de gastos, é feito pelo app Cleo, um assistente financeiro virtual que usa inteligência artificial e recursos de linguagem natural para analisar gastos e conversar com os correntistas. O segundo caso, de saldo preditivo, é desenvolvido pela fintech Yolt, que já funciona integrada a bancos de varejo da Alemanha e Holanda, orientando correntistas sobre o que ocorrerá com seu dinheiro no futuro.

Para com Ricardo Heidel, estrategista da consultoria Accenture, o fenômeno do open banking diminui o poder relativo dos bancos de varejo, mas lhes abre um horizonte infinito para integrar inovações e comodidades para o correntista sem arcar com os custos - e os riscos – de desenvolver aplicativos bancários. “A comparação que faço é como ir a um supermercado da marca “A”: nas prateleiras, você até pode achar alguns produtos que levam a marca do supermercado, mas o universo de itens é tão grande que, inevitavelmente, você encontrará um achocolatado da marca B e um sabão em pó da marca C”, afirma Heidel. “Acredito que, no futuro, os bancos não poderão prover sozinhos todos os produtos financeiros que seus correntistas usarão.”

Outra comparação possível é com os smartphones, que podem ter sistemas operacionais do Google ou da Apple, mas rodam aplicativos feitos por centenas de desenvolvedores, possibilidade que ampliou enormemente o potencial de inovação mobile.

Riscos e oportunidades

Há uma diferença crucial entre bancos, supermercados e smartphones: as instituições financeiras obedecem a regulações estritas e trabalham com riscos potencialmente muito maiores do que o de entregar um sabão em pó ou achocolatado de má qualidade. Elas lidam com o dinheiro dos correntistas.

De acordo com a advogada especialista em direito digital Patricia Peck, que participou, em São Paulo, do Summit Open Banking, evento promovido pela FEBRABAN, o boom de open banking no Brasil só poderá acontecer após a definição de uma regulação clara sobre o tema, que defina a divisão de responsabilidades entre fintechs, correntistas e bancos. “Sem uma regra clara, os bancos ficam expostos tanto a riscos de imagem quando a prejuízos financeiros, caso sejam responsabilizados por falhas de aplicativos de terceiros que vazem dados ou levem o correntista a perder dinheiro”, diz.

Não à toa, os casos mais impressionantes de aplicações de terceiros acopladas às plataformas bancárias são registrados na Europa, região em que o Banco Central Europeu e o Banco Central do Reino Unido definiram os limites legais de responsabilidades dos bancos e, ainda, determinaram um cronograma para que toda instituição atuante no velho continente abra parcialmente suas plataformas para acesso de terceiros. “Foi uma medida muito corajosa, que protegeu bancos e correntistas”, afirma Patrícia.

Decisão final é do correntista

De acordo com o Paschoal Baptista, sócio da consultoria Deloitte, as plataformas de open bankingapoiam-se na ideia de que os dados bancários pertencem aos donos da conta bancária, e não aos bancos. “O open banking parte do pressuposto de que os dados são do cliente, o que empodera o correntista, ao mesmo tempo que pode proteger os bancos, uma vez que a decisão da cessão é sempre do cliente com o app em que ele confia”, afirma Baptista.

Caso pioneiro no país, o Banco do Brasil opera, desde o fim de 2017, uma plataforma aberta em parceira com a fintech Conta Azul, que analisa gastos, organiza as finanças e oferece soluções de gestão de vendas e contabilidade para pequenas e médias empresas correntistas do BB. De acordo com o gerente executivo de TI do banco, Carlos Rudnei, a parceria permite a empreendedores com conta no BB acessar um ERP (sistema de gestão financeira) integrado à conta corrente, diminuindo custos com contabilidade e automatizando procedimentos financeiros. “A experiência tem sido tão positiva que o BB negocia com outras quatro fintechs brasileiras a abertura de nossa plataforma para suas soluções”, afirma Rudnei, que, por motivos contratuais, não revela quem são os próximos apps a terem via direta com os correntistas do Banco do Brasil.

Embora muito novo, o open banking já atrai a atenção de outros grandes bancos nacionais, que desejam testar e compreender como explorar a nova tecnologia. Novo presidente do Bradesco desde março de 2018, Octavio de Lazari Junior, definiu, em discurso de posse, o open banking como uma das prioridades do banco, que testará a tecnologia inicialmente com os 80 mil correntistas de sua versão digital Next. O executivo, porém, alerta que a instituição avançará com cautela na nova seara. “Entendo que open banking deve ser mais disruptivo do que foi o surgimento dos bancos digitais, mas vamos avançar com responsabilidade”, afirmou. “Se abrirmos todos os dados, deixamos de ser um banco para ser uma corretora.”

Durante participação no Summit Open Banking da FEBRABAN, Fábio Lacerda Carneiro, chefe-adjunto do Banco Central, fez elogios ao uso de plataformas abertas por bancos brasileiros, mas ressaltou que, até o momento, o BC não tem uma definição institucional sobre “a pertinência, necessidade ou oportunidade” de intervir no mercado definindo regras para o funcionamento destas plataformas no país.

De acordo com Lacerda, o BC acompanha a experiência europeia, mas avalia que a realidade financeira do continente não pode ser transposta para o Brasil. “Pessoalmente, vejo muitos benefícios no open banking como a possibilidade de diminuir a assimetria de informações entre instituições financeiras e aumentar a produtividade de nossa economia. No entanto, precisamos sempre nos assegurar que a diminuição de custos e ganhos operacionais não tenham como contrapartida a diminuição da segurança operacional de nosso sistema financeiro”, afirmou Lacerda.

A depender de bancos e autoridade regulatória, as prateleiras do supermercado bancário brasileiro vão se encher de produtos em ritmo mais modesto que o sonhado pelas fintechs, mas ao fim do processo, assim como nas gôndolas com variedade de achocolatado e sabão em pó, haverá aplicativos para todos.

  •  Fonte: http://www.ciab.com.br/publicacoes/edicao/74/com-que-programa-eu-vou?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Revista+CIAB+74
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