Engrenagens movidas a blockchain

10/05/2018 - Experimentos com a tecnologia avançam entre as instituições financeiras no país, mas enfrentam desafios.

A substituição das divisas tradicionais, como o dólar ou o euro, por criptomoedas ainda é uma possibilidade, num cenário futurista. Mas as diferentes versões do blockchain, uma das tecnologias trazidas pelo bitcoin, já começaram a ser aplicadas e testadas por instituições financeiras do país, que desenvolvem projetos em frentes tão diversas quanto garantias em operações com derivativos ou transferência de dinheiro entre pessoas de maneira simplificada como numa troca de mensagens.

blockchain é uma espécie de livro contábil, onde os dados registrados são compartilhados e distribuídos entre as partes envolvidas, e ficam gravados em múltiplos lugares. No bitcoin, isso garante a confiabilidade das transações, por dispensar a necessidade de um órgão regulador para fiscalizar e legitimar as transações. Não demorou para que o mercado percebesse as vantagens de aplicar o blockchain em outros contextos. Diferentes versões começaram a ser desenvolvidas por consórcios e empresas de tecnologia, de olho nos benefícios que poderiam trazer.

Os primeiros resultados desse trabalho começaram a aparecer. O Santander anunciou em abril deste ano o serviço One Pay FX, que usa o blockchain para fazer transferências internacionais entre pessoas físicas. Por enquanto, a novidade funciona apenas em alguns países, mas o Brasil está nesse grupo. “Clientes do Reino Unido podem usar o One Pay para transferir moeda pela Europa e para os Estados Unidos. Na Espanha, clientes podem transferir para o Reino Unido e os EUA, enquanto os consumidores do Brasil e da Polônia podem transferir para o Reino Unido”, disse Ana Botín, presidente mundial do Grupo Santander. “Nosso objetivo é apoiar as milhares de pessoas que utilizam serviços de pagamentos internacionais diariamente, e acrescentaremos mais moedas e destinos nos próximos meses.”

A tecnologia usada é o xCurrent, da startup Ripple, que recebeu investimentos de um fundo ligado à instituição. Sua aplicação permite que o tempo das transferências caia de dois dias para até duas horas, se forem realizadas no horário de expediente bancário do país de destino. O serviço está disponível inicialmente para clientes Select e o limite é de US$ 3.000. “Nossa equipe participou de todas as etapas do desenvolvimento do Santander One Pay FX, e segue em busca de oportunidades para o uso do blockchain em outras aplicações que possam melhorar nossos serviços, tanto em estudos no Brasil quanto em parceria com os especialistas em tecnologia do banco em outros países”, afirmou o presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial.

O One Pay FX pode ser acessado pelo aplicativo do banco para smartphones. A previsão é de que, até o fim do primeiro semestre, os brasileiros possam fazer envios em euros para a Espanha. No segundo semestre, outros países da União Europeia também poderão receber transferências e, no ano que vem, o Santander deve liberar o envio e recebimento de dólares entre o Brasil e os Estados Unidos. Durante a fase de lançamento, o banco não vai cobrar tarifas pela operação.

Pioneirismo

No Brasil, o Itaú Unibanco foi a primeira instituição financeira a usar oblockchain em um dos seus processos. Anunciado em fevereiro, o Blockchain Collateral surgiu para substituir a forma como eram registradas as negociações de garantias feitas entre os bancos nas operações de balcão derivativos. “O blockchain, em si, não é o produto; o produto é um derivativo de balcão que o Itaú faz com outra tesouraria de outro banco”, explica Cristiano Cagne, diretor de Operações do Itaú Unibanco.

Nesses casos, após fechar uma operação, analistas das instituições costumavam trocar uma grande quantidade de e-mails até chegarem a um acordo sobre o cálculo para a garantia acertada previamente. Isso porque os ativos usados não estão registrados em nenhuma câmara de compensação ( clearing). “Cada banco calcula de uma determinada forma, com uma teoria matemática diferente”, diz o executivo. Essa confusa e extensa troca de mensagens foi transposta para o blockchain.

O Itaú Unibanco criou um portal que é acessado, por meio de login e senha, por todos os participantes da negociação. Cada lado propõe um cálculo, atualiza-se o valor da garantia e a outra parte decide se aprova ou não, até que se chegue a um consenso. O blockchain fica invisível: está presente nas engrenagens desse site, registrando toda a troca de informações. “Toda a transação está devidamente registrada, criptografada e protegida para efeito de uma auditoria ou uma posterior discussão judicial, caso seja necessário”, destaca Cagne. “Usamos a tecnologia a nosso favor para reduzir a quantidade de informação trafegando de um lado para o outro, para proteger essa informação de uma forma íntegra.”

blockchain substituiu um processo manual de conferência e validação, cheio de idas e vindas, tornando todo o processo muito mais seguro. Também ajudou a melhorar a produtividade dos funcionários envolvidos. “Nossos analistas e os da outra parte gastam menos horas para ficarem monitorando essa história até chegar a um acordo”, diz Cagne. “Liberamos tempo desses analistas para fazerem outras coisas.” Até o momento, outras duas instituições financeiras participam do Blockchain Collateral com o Itaú Unibanco. Mais três estão interessadas e podem entrar esse ano. Nos dois primeiros meses da experiência, não houve nenhum problema técnico na implementação da tecnologia.

A plataforma adotada foi a Corda, desenvolvida pelo consórcio R3, do qual o Itaú Unibanco faz parte. Ao contrário do blockchain de criptomoedas como o bitcoin, que é aberto e pode ser visto por qualquer pessoa, a plataforma Corda foi construída para permitir que os dados sejam conhecidos apenas entre as partes envolvidas. Isso garante a privacidade das informações e permite a sua aplicação por instituições financeiras ou outras empresas, preocupadas com a manutenção do sigilo dos dados.

Experimentos internos

O Bradesco participa de provas de conceito (testes práticos) com a tecnologia, mas deu um passo além, e tem feito experimentos internos de forma paralela a alguns dos processos do banco. “O blockchain, por ser uma tecnologia nova, precisa ser testado exaustivamente para vermos se tem uma performance tão boa como a de sistemas maduros que nós temos”, afirma Antranik Haroutiounian, diretor do Departamento de Pesquisa e Inovação do Bradesco. “Em termos de benefícios, ele permite fazer certas otimizações que acabam reduzindo custos.” Outra vantagem está no fato de ser uma plataforma colaborativa, que envolve o compartilhamento de informações entre os envolvidos.

Os resultados obtidos indicam que o banco deve começar a usar a tecnologia ainda este ano em algum dos seus sistemas. As plataformas experimentadas têm sido a Corda, do R3 – do qual o Bradesco faz parte –, e a Hyperledger Fabric, capitaneada por IBM e Oracle. Ambas estão na versão 1.0. O maior desafio, por enquanto, está em aplicar o blockchain a cenários que envolvem uma grande quantidade de operações. “Dependendo do que você escolher, a volumetria vai ser um problema, porque as plataformas atuais não dão a volumetria que precisamos em alguns casos de uso”, ressalta George Marcel Smetana, consultor do Departamento de Pesquisa e Inovação do Bradesco.

A ideia de substituir o sistema de pagamentos de boletos bancários, por exemplo, foi adotada em uma prova de conceito que envolveu várias instituições. O experimento mostrou que as plataformas ainda não estão prontas para um salto tão grande – são emitidos cerca de 4 bilhões de boletos por ano. Em situações com volume bem menor, no entanto, já é possível usar a tecnologia. “Essa nova plataforma tem que ser melhor em termos de performance do que a atual; no mínimo igual”, diz Haroutiounian. “Você não vai substituir algo por outro que vai degradar a sua performance.”

Colaboração e viabilidade

Provas de conceito e protótipos internos também têm sido feitos pelo Banco do Brasil, às vezes em aplicações não financeiras. Uma das primeiras experiências, por exemplo, foi a criação de uma rede de compartilhamento de informações biométricas de fraudadores, entre instituições. Cada participante compartilharia, via blockchain, os dados de criminosos identificados. Se essas pessoas tentassem usar um caixa eletrônico de um outro banco que está nessa rede, poderiam ser identificadas com uma simples consulta. “Podemos extrapolar essa tecnologia para criar um cadastro positivo de clientes bancários; a mecânica seria a mesma”, ressalta Igor Regis, gerente-executivo de TI que está à frente de soluções tecnológicas do Banco do Brasil, incluindo o blockchain.

Outro piloto interno foi a criação de uma criptomoeda, chamada flurbos, que é utilizada no Laboratório de Experimentação do Banco do Brasil (Labbs). Alguns funcionários recebem um patrocínio nessa moeda virtual para desenvolver projetos dentro do ambiente de inovação. Os dois experimentos foram feitos com a plataforma MultiChain, liderada pela startup Coin Sciences. Testes desse tipo servem para explorar as potencialidades da tecnologia e começaram a ser feitos pelo Banco do Brasil há dois anos. A instituição também participa de protótipos com outros bancos.

Nos testes de laboratório com MultiChain, a instituição conseguiu atingir a marca de 800 transações por segundo. “Já é algo próximo ou capaz de suprir a necessidade transacional de DOCs e TEDs do país todo”, diz Regis. “É um número pequeno? Sim, mas nem tanto; é capaz de atender a um determinado cenário real.” Além de precisarem ganhar mais capacidade, as plataformas de blockchaintambém dependem de colaboração entre diferentes parceiros, que são concorrentes. “O blockchain é uma tecnologia na qual nenhuma empresa consegue colher um benefício pleno sozinha”, acredita. Em alguns cenários, todos precisam adotar uma mesma plataforma, por exemplo.

As lições aprendidas a partir desses experimentos começaram a ser debatidas internamente. “Estamos em uma fase de aprofundamento desse conhecimento por parte das áreas de negócios”, diz Regis. “E iniciaram-se discussões internas dos diversos produtos ou processos à luz das possibilidades que a tecnologia de blockchain permite.” Novidades devem ser anunciadas ainda este ano.

A Caixa pretende iniciar um piloto juntamente com outras instituições, em ambiente controlado, de um sistema de transferência de valores entre pessoas por meio de dispositivos móveis. Alguém poderá mandar dinheiro para um contato como se estivesse enviando uma mensagem, graças a uma rede privada de blockchain. “Os testes integrados iniciaram em novembro e deverão ter seu uso controlado ampliado em 2018 para validar a tecnologia e definir novas estratégias”, afirmou o banco, em nota. Sinal de que, iniciado o movimento, as engrenagens do blockchain não vão parar mais de rodar.

  •  Fonte: http://www.ciab.com.br/publicacoes/edicao/74/engrenagens-movidas-a-blockchain?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Revista+CIAB+74
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